“Todo mundo espera alguma coisa de um sábado a noite”
Lulu Santos
A tragédia feminina resume-se em estar num quarto sozinha, sábado a noite, ouvindo o bingo da igreja, lembrando que na noite anterior capotou assistindo um documentário e acordou assustada na madrugada jurando ser nove da noite.
A decadência feminina é num sábado a noite numa conversa pelo MSN as amigas tentarem te convencer de que é bom aprender que eu não deveria querer fazer canções de amor,
O ápice da derrota feminina é ter em sua gaveta um monte de lingeries lindas e diversos perfumes franceses no frasco....
Ou talvez nada disso.
Tá! Que ele era um puto eu já sabia desde o acidente chamado terceiro encontro. Mas vá lá...
Eu já tinha definido que era só sexo. Simples assim! Ficar com dores no couro cabeludo me apetecia e deixava a pele mais bonita pra jogar charme em outro.
Mas sinceramente estabelecer uma relação (mesmo que só sexual) com um advogado, pagodeiro, marombeiro e puto, exige muita serenidade além do que eu julgava ter.
Lembro de nossas trocas de e-mail. Numa delas eu inocente, transcrevi um trecho da canção da Zélia Duncan. Fui acusada de cartas de manifesto contra o governo, textos de insanidade e loucura e fiquei com a maior cara de tacho pro computador perguntando a todos os santos de onde poderia ter vindo tal resposta. Obviamente após um chilique, ao melhor estilo rodar a baiana que existe em mim, desapareci esperando respostas pela agressão gratuita. Resposta que não veio... E que nunca virá.
Mas os putos sempre reaparecem repletos de doçura e sabe-se lá porque num e-mail em plena segunda-feira. Aqui não há lógica alguma. Se o email chegasse às quatro da tarde da sexta-feira seria fácil compreender...
-Vamos nos encontrar?
- Claro! Mas você irá me explicar o surto do último e-mail?
Silêncio...
E aí eu começava a me condenar por exigir diálogo onde não deveria existir. Por que raios eu não fiquei quieta e marquei logo a porra do encontro?
Surpreendentemente, ele respondeu com bom humor. Bom humor em plena segunda?
Papo vai, papo vem... Cano vai...cano vem! E nada...
Desencano novamente. Afinal nada mais desprezível em uma mulher do que a insistência no vazio.
Quarta feira , duas da manhã, eu me preparando pra dormir depois de uma noite boêmia sem álcool e de repente meu celular toca. Sim... Era ele! Todo doce querendo me encontrar àquela hora. Coisa simples, pra quem entraria no trabalho as sete do dia seguinte. Fingi ternura! Combinamos de nos falarmos no dia seguinte...
O puto não ligou. Mandou e-mail pra me ver. Na sexta-feira. (Pelo menos estamos lidando num terreno conhecido e cheio de lógica).
Ele me ligou as duas da manhã de sexta para sábado! Não atendo! Me recuso a atender uma ligação de um puto na madrugada. Mesmo quando estou em casa sem fazer nada (que era o caso, mas que ele nunca saberá).
Certa vez ele disse pra mim que sou poeta,que palavras são só palavras. Quer coisa mais criminosa? Era melhor um tapa na cara do que tal afirmação. Mas ele é um advogado, ponderei!
E o dia que ele deu murros ao volante, enquanto gritava freneticamente porque eu tenho amigos homens? Sim ele era machista também. Além de ter percebido em suas frases um preconceito asqueroso e discreto.
Mas tudo se resumia ao “só sexo”. Eu quando invoco que devo ser mulher moderna é um desastre.
Continuamos nos falando. Quando acabava o crédito, ele dava um toquinho, Outra novela. O que eu quero com um homem que dá toquinho no celular? Coisa mais repugnante. Homens, saibam que nós mulheres independentes esperamos mais. Mesmo que SPS (só pra sexo). A gente releva em prol do objetivo, mas saibam: vocês se tornam o assunto do dia seguinte.
Papo vai....papo vem... Cano vai, cano vem...Nada!
- Comecei a fazer teatro.
-!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! (Será que ele decidiu aprender quem é Vandré ou a dança tão famosa do Jair Rodrigues?)
Uma esperança lá no fundo do peito de que talvez pudesse ser sexo e mais conteúdo. Ao menos.
-Como foi a aula hoje?
- Legal!
Silêncio....
O fim está legitimado.
Sem beijo virtual de despedida. Sem qualquer outra palavra. Sem perspectiva alguma.
Eu conclui que pelo menos com este o plano SPS não vai vingar. Afinal, tem tanta gente interessante no mundo.
Decidi ir pro fogão fazer uma omelete e aí sim descobri a grande tragédia feminina: não existe tomate na sua geladeira.
A dignidade às vezes é simples como ovos, sal, orégano, queijo, manjericão e o tomate que não existia.
Crédito de Imagem: http://mondrongo.wordpress.com